ATLAS.ti no estudo de aprendizagem empreendedora – códigos e famílias de códigos

November 30, 2014

Autora:  Ariane A. Corradi

Introdução

Estudos sobre aprendizagem nas organizações, no Brasil, têm focado metodologias quantitativas do tipo survey. Nesses estudos, as respostas dos participantes são agrupadas para testar hipóteses e gerar modelos explicativos da aprendizagem individual a partir de relações entre variáveis individuais e contextuais.

Contudo, essas metodologias são insuficientes para investigar processos mais sutis de aprendizagem, como aqueles em que a aprendizagem ocorre informalmente, sob controle do aprendiz (Ellström, 2011; Moraes & Borges-Andrade, 2010). A pesquisa referida neste artigo investigou processos informais de aprendizagem, sob a forma de episódios de aprendizagem críticos em pequenas empresas. Os dados primários do estudo são cerca de 80 horas de entrevistas com empreendedores e gerentes de incubadoras de empresa brasileiros.

O ATLAS.ti no contexto da pesquisa

Devido à escassez de textos em português sobre o uso do ATLAS.ti, este artigo mostra o passo-a-passo da codificação realizada nesse estudo. Vou ilustrar como essas narrativas foram codificadas e como esses códigos foram relacionados, de modo que eu pudesse trabalhar com esse grande volume de informações.

Primeiro importei as transcrições das entrevistas do Word para a Unidade Hermenêutica da pesquisa, no ATLAS.ti (o caminho é Documents – New – Add Documentos (My Library)). Como fiz entrevistas com empreendedores e com gerentes, criei duas famílias de documentos primários: uma para empreendedores (Entrepreneurs) e outra para os gerentes (BI managers). Isso permitiu futuras comparações entre as visões desses dois grupos sobre aprendizagem empreendedora nas incubadoras.

Fig1

Figura 1. Tela do gerenciador de documentos primários. À esquerda, estão as famílias de respondentes; à direita, a lista dos arquivos de transcrição, sendo um arquivo para cada entrevista transcrita.

O processo de codificação e de formação de famílias de códigos

O estudo foi exploratório no sentido de identificar os elementos de cada episódio crítico, à luz do referencial teórico da pesquisa. Assim, o referencial teórico guiou a primeira fase de codificação, na qual códigos correspondentes ao referencial teórico foram criados. Essa é uma forma dedutiva de realizar codificação axial (axial coding). Nesse tipo de codificação, os códigos são vinculados “em torno do eixo de uma categoria, ligando categorias ao nível de propriedades e dimensões” (Strauss & Corbin, 1998, p. 123). A categoria mais abrangente era critical learning episode (CLE_learning episode). Vinculados a essa categoria estavam os códigos referentes aos demais elementos do referencial teórico.

Como ilustrado na Figura 2, a categoria CLE_learning episode foi descrita na parte inferior do gerenciador de códigos. Essa descrição corresponde à definição operacional da categoria episódio de aprendizagem crítico. A Figura mostra que essa categoria aparece em 936 citações ao longo das 49 entrevistas que compõem a unidade hermenêutica.

Além disso, a Figura 2 também mostra que os códigos que se relacionassem à categoria episódio de aprendizagem crítico foram agrupados sob a família CLE. Exemplos desses códigos são o gatilho inicial para o episódio (CLE_trigger), corrupção (corruption) e inadimplência (default).

Fi2

Figura 2. Tela do gerenciador de códigos, com a lista de códigos, famílias e definições de cada código ou categoria.

 

À medida que a análise avançou, foi necessário desmembrar algumas categorias iniciais em subcategorias, de modo a descrever melhor as dinâmicas que compõem o fenômeno representado pela categoria. Por exemplo, networking. Por meio de suas redes sociais, empreendedores desenvolvem novos conhecimentos que os ajudam a superar episódios críticos. Para entender melhor como as redes sociais podem ajudar os empreendedores a aprender, eu revisitei cada citação sobre networks para adicionar um novo código, específico para o tipo de característica do relacionamento em rede. Como resultado, surgiram códigos como ntw_dynamics (dinâmicas de rede), ntw_trust (redes de confiança), ntw_partnership (parcerias de negócios), instituição de apoio, etc. Esses códigos foram agrupados sob a família Networks.

Figura 3. Desmembramento da categoria networks em subcategorias, as quais estão agrupadas na família Networks.

Figura 3. Desmembramento da categoria networks em subcategorias, as quais estão agrupadas na família Networks.

Observe que as subcategorias estão nomeadas com o mesmo prefixo, ntw (networks), de modo que os novos códigos ficam sequenciados em ordem alfabética, na lista de códigos. Há várias vantagens em nomear esses códigos com o mesmo prefixo. Primeiro, isso facilita localizar os códigos na lista de códigos, tornando o processo de codificação mais célere. Segundo, fica mais fácil agrupar esses códigos em famílias, para análises futuras.

Esse procedimento possibilitou detalhar a codificação das narrativas dos empreendedores e identificar relações entre códigos da categoria networks. Veja, como exemplo, a rede de relações para a família Networks. Essa rede foi construída por meio do caminho Networks – View Network View.

Figura 4. Elaboração das redes de relações envolvendo a família de códigos Networks.

Figura 4. Elaboração das redes de relações envolvendo a família de códigos Networks.

Relações entre códigos

Por meio da identificação das relações entre esses códigos, algumas relações foram empiricamente observadas, conforme ilustrado na Figura 5.

Figura 5. Rede semântica de relações entre códigos da família Networks. Setas vermelhas indicam os códigos que compõem a família Networks. As cores das células indicam o enraizamento (groundedness, que corresponde ao número de citações em que o código aparece) e a densidade dos códigos (que corresponde ao número de conexões com outros códigos).

Figura 5. Rede semântica de relações entre códigos da família Networks. Setas vermelhas indicam os códigos que compõem a família Networks. As cores das células indicam o enraizamento (groundedness, que corresponde ao número de citações em que o código aparece) e a densidade dos códigos (que corresponde ao número de conexões com outros códigos).

Nesse exemplo, à direita da figura, nota-se que estabelecer relações com instituições de apoio (ntw_support institution) faz parte das dinâmicas de redes sociais de empreendedores, por meio das quais ocorre aprendizagem. Essas instituições de apoio, além de seu papel de provedoras de serviços para as pequenas empresas, também se configuram como parte das redes sociais de confiança dos empreendedores (ntw_trust). Assim, informações aprendidas dentro das incubadoras, que são instituições de apoio centrais nesse estudo, são legitimadas e usadas pelos empreendedores. Por meio dessas relações de confiança, empreendedores expandem suas redes de contatos com outras empresas e empreendedores, estabelecendo parcerias de negócios (ntw_partnership). Aqui aparece o papel mediador da incubadora para que pequenos empreendedores possam estabelecer ou ampliar suas redes de negócios.

Serendipidade

Além de testar premissas do referencial teórico nos dados empíricos, o ATLAS.ti também possibilitou, pelo princípio de serendipidade, que novos códigos emergissem durante o processo de codificação aberta (open coding). Por esse processo, “eventos, acontecimentos, objetos e ações/interações que são conceitualmente similares em sua natureza ou relacionados por seu significado são agrupados em termos mais abstratos, chamados de ‘categorias’” (Strauss & Corbin, 1998, p. 102). Um exemplo é a categoria princípio motivador (guiding principle), que reflete a razão pela qual o empreendedor resolveu abrir um negócio.

Essa motivação inicial para abrir a empresa emergiu, ao longo de sucessivas etapas de codificação das narrativas dos empreendedores, como um dos fatores possivelmente associados a episódios de aprendizagem críticos. Contudo essa categoria não fazia parte do referencial teórico. Nas entrevistas, havia códigos abertos como oportunidade empreendedora e pressão do mercado para abrir uma empresa. Observando-se similaridades relacionais entre códigos como esses foi que a ideia de princípios motivadores emergiu. Assim, por um processo indutivo, esses códigos foram agrupados sob a categoria guiding principle (observe que o prefixo GP foi adicionado ao nome dos códigos originais) (Figura 6). Esse novo conceito, resultante da aplicação de princípios de teoria fundamentada (grounded theory), passou a fazer parte de análises futuras na pesquisa.

Figura 6. Conceitos que emergiram sob a lógica indutiva da análise de narrativas.

Figura 6. Conceitos que emergiram sob a lógica indutiva da análise de narrativas.

Acompanhamento do processo

Paralelamente ao processo de codificação, formação de famílias de códigos e análise de relações entre códigos, é importante realizar o bom acompanhamento das decisões e etapas da análise de dados. Para isso foram criados memos de comentários e memos metodológicos no ATLAS.ti, nos quais o passo-a-passo do estudo foi documentado. Posteriormente, esses memos foram usados para apoiar a redação dos resultados. A Figura 7 exemplifica um memo sobre competição e episódios de aprendizagem críticos.

Figura 7. Exemplo de memo sobre interpretação dos resultados.

Figura 7. Exemplo de memo sobre interpretação dos resultados.

Conclusão

Esse artigo exemplifica como os procedimentos de codificação puderam ser aplicados tanto à lógica dedutiva quanto à indutiva, utilizando-se o ATLAS.ti. Na primeira fase de codificações, os códigos aplicados às narrativas foram definidos pelo referencial teórico. Nas fases seguintes, os conceitos gerais do referencial teórico foram aprofundados em conceitos mais específicos e deram margem ao surgimento de novos códigos. A partir de então, por análise indutiva, seguindo-se preceitos de teoria fundamentada (Strauss & Corbin, 1998), foi possível identificar outros conceitos, que não faziam parte do referencial teórico, mas que foram incorporados a análises posteriores, compondo um quadro teórico-analítico mais completo do que o inicialmente desenhado na pesquisa.

Essa flexibilidade de uso do software é importante para estudos sobre construção de teoria baseada em casos (Eisenhardt & Graebner, 2007). Nesse estudo, por meio do ATLAS.ti, foi possível trabalhar com um grande volume de entrevistas de forma organizada e combinando, em fases diferentes do projeto, análises dedutivas e indutivas. Os resultados do estudo confirmaram e, além disso, expandiram o referencial teórico inicial, com a introdução de novos conceitos e relações entre conceitos.

Referências

Eisenhardt, K. M., & Graebner, M. E. (2007). Theory building from cases: Opportunities and challenges. The Academy of Management Journal, 50(1), 25-32.

Ellström, P. (2011). Informal learning at work: Conditions, processes and logics. In M. Malloch, L. Cairns, K. Evans & B. N. O’Connor (Eds.), The Sage Handbook of Workplace Learning (1st ed., pp. 105-119). London: Sage Publications.

Moraes, V. V., & Borges-Andrade, J. E. (2010). Aprendizagem relacionada ao trabalho. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 10(2), 112-128.

Strauss, A., & Corbin, J. (1998). Basics of qualitative research (2nd ed.). Thousand Oaks: Sage Publications.

Sobre a autora

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Ariane A. Corradi é Professora Adjunta de Psicologia das Organizações do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais. PhD em Estudos do Desenvolvimento pelo International Institute of Social Studies, na Universidade Erasmus de Roterdam, sua tese foi sobre episódios de aprendizagem críticos em pequenas empresas no Brasil. Pesquisadora e professora da área de estudos organizacionais, tem especial interesse em processos de aprendizagem em pequenas empresas, redes sociais para aprendizagem e produção do conhecimento, e métodos de pesquisa quantitativos e qualitativos. Ariane é autora de artigos científicos, capítulos de livros e co-editora de livros.

Nota do editor: Este artigo foi escrito em relação a um projeto feito com o ATLAS.ti 7.  No ATLAS.ti 7.5, não existe a “My Library” (Minha biblioteca).  Nesta nova versão do ATLAS.ti, só existe uma biblioteca onde guardar os documentos do projeto (Library).

 

 

 

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